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O Lirismo Épico de Stockinger


"Eu chamo as pedras de descanso do guerreiro. Dão alguns calos na mão, cansam um pouco os braços, mas aquele martelar incessante, monótono, é um negócio que relaxa a mente da gente, descansa a vista, porque são coisas mais sensuais, em que se tem vontade de passar a mão”.

 

Francisco Stockinger nasceu na Áustria em 1919, naturalizou-se escultor e brasileiro. Seu sonho era ser piloto e conseguiu. Depois se formou em meteorologia na primeira turma de nível superior do país em 1939, mais tarde iniciou seus estudos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro em 1946 e, em 1954, mudou-se para Porto Alegre/RS, onde vive até hoje. Sua multiplicidade, sua diversidade e a ampla gama de seus interesses imprimem nas obras mais do que a visão estética de um mundo: criam um universo de formas e arestas, de volumes e cores revelando a amplitude de sua própria existência.

 

Trabalha com bronze, mármore, ferro soldado e xilogravura. Um grande, maravilhoso escultor que, para variar, é pouco conhecido; mas dessa vez não pelo pessoal da área de artes, pois todos o respeitam – e não é para menos – sua biografia é invejável... mas é desconhecido pelo público.

 

O pior: algumas de suas obras estão na Praça da Sé, no shopping Ibirapuera em São Paulo, no fórum, no estúdio Flávio Del Mese, Praça Don Sebastião de Porto Alegre, no Parque da Escultura do Rio de Janeiro – só estou citando alguns lugares. A impressão que tenho é que ninguém vê, ninguém sabe ou ao menos se interessa.

 

Como me entristece a falta de incentivo nesse país. Eu sei, é um jargão essa frase, mas o que eu digo de um país que prefere incentivar axé nas escolas? A pior cegueira é aquela que mata o olhar do espírito.

 

Stockinger soma, subtrai, adiciona, extrai, constrói, molda, funde, reúne, busca o verbo, o corpo em suas mãos cinqüenta anos dedicadas à arte, é único, é múltiplo.  Criou o grito, a força, a coragem em seus guerreiros, prisioneiros e sobreviventes de corpos sofridos, no dramático ato expressionista contra a opressão – vence a escultura. Por conta de três pontes de safena e um longo período de repouso, apaixona-se pelo cultivo de cactus, criando uma ampla estufa em Porto Alegre, um dos pontos mais bonitos da cidade. Só poderia mesmo ser essa planta; sua superfície e a pele de seus guerreiros em bronze tornam-se um só.

 

Quando volta a esculpir, larga o escudo, a lança e louva o mármore com formas líricas, cheias de libido, eróticas – é o culto religioso ao prazer dos sentidos. 

  

Em meados de 90 cria suas mulheres, maiores que a proporção humana, mulheres monumentais, louvando-as em suas formas, desvendando o vasto e tão rico universo feminino.  Perguntam-lhe se trabalha com modelo vivo:

 

“Se aos 76 anos eu ainda não souber tudo sobre mulher, quando é que vou saber?".

 

  


Escrito por Ana Ulanin.

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Só podia ser ele mesmo...


Com aquela carinha de anjo, bem educado, fala mansa e... sarcástico até a medula! Fazer o que, é um querido amigo e pior: o filho da mãe escreve bem.

Mas me aguarde, deixa você voltar aqui em casa que te tranco no quartinho junto com o Nicolau só para te ver tendo um ataque de renite!

Calma Fabiana, o Nicolau, meu gato. Lembra? *rs*

 

Quarteto Musical Inspirações Taciturnas Exteriores

Aos amigos Ana, Fabiana, Fábio, e a mim

 

No sítio onde nasce a sepultura,

Ana tange, estendida, sua gastrite:

Sua voz não corresponde à que existe

No centro virginal de sua postura...

 

E sobe, pra compor a conjuntura,

A Ana que co' o Fábio se permite,

No esôfago entoando uma gastura,

Que causa no Rodrigo sua rinite...

 

Este, Senhor do Pó, entra mucoso

Na Ordem da Sagrada Inteligência

E canta o branco humor a toda a gente...

 

Então eu, que dos três sou o regente,

A mão soergo e o pulso fatigoso

E findo - santo Deus... - nossa presença.



Escrito por Ana Ulanin.

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La Beauté




Gosto do meu livro assim: que não descansa na estante, que está envelhecido, marcado pelo tempo e por minhas mãos. Gosto quando as páginas se abrem sozinhas mostrando alguns poemas preferidos, páginas que não são mais brancas, algumas com anotações à lápis - caneta nunca. Assim é meu livro As Flores do Mal de Charles Baudelaire, que me foi presenteado pelo Fabio anos atrás, não lembro a data, mas jamais me esqueço o momento. Parando para pensar percebo que nossa relação começou pelas letras há muito tempo.

Leio, releio e não me canso de falar desse livro que em 1857 foi perseguido, condenado por ultraje à moral e aos bons costumes. Na época a justiça obrigou Baudelaire a retirar seis poemas do volume que só a partir de 1911 reapareceram edições completas da obra.

Sua poesia está marcada pela contradição. Mesmo elogiada por Victor Hugo, Teóphile Gautier, Gustave Flaubert e Théodore de Banville, o livro despertou hostilidades na imprensa e foi julgado por muitos como um subproduto degenerado do romantismo. Crucificado ou não, ele influenciou toda a poesia simbolista mundial e lançou as bases da poesia moderna.

Em 1867 quando mal começava a ser reconhecida sua influência duradoura sobre a evolução da poesia, Baudelaire morreu de paralisia geral em Paris depois de uma existência das mais atribuladas.

La Beauté

(Charles Baudelaire)

 

Je suis belle, ô mortels! Comme un rêne de pierre,

Et mon sein, où chacun s’est meurtri tour à tour,

Est fait pour inspirer au poëte un amour

Éternel et meut ainsi que la matière.

 

Je trône dans l’azur comme un sphinx incompris;

J’unis un coeur de neige à la blancheur des cygnes;

Je hais le mouvement qui déplace les lignes,

Et jamais je ne pleure et jamais je ne ris.

 

Les poëtes, devant mes grandes attitudes,

Que j’ai l’aird d’emprunter aux plus fiers monuments,

Consumeront leurs jours en d’austères études;

 

Car j’ai, pour fasciner ces dociles amants,

De purs miroirs qui font toutes chouses plus belles:

Mes yeux, mes larges yeux aux clartés éternelles!

A Beleza
(Charles Baudelaire - Tradução de Ivan Junqueira)

Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra,
E meu seio, onde todos vêm buscar a dor,
É feito para ao poeta inspirar esse amor
Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.

No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada;
Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve;
Odeio o movimento e alinha que o descreve,
E nunca choro nem jamais sorrio a nada.

Os poetas, diante de meus gestos de eloqüência,
Aos das estátuas mais altivas semelhantes,
Terminarão seus dias sob o pó da ciência;

Pois que disponho, para tais dóceis amantes,
De um puro espelho que idealiza a realidade:
O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!



Escrito por Ana Ulanin.

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Gastrite


“A gastrite caracteriza-se por uma inflamação da mucosa gástrica, geralmente manifestada por náuseas, vômito, hemorragia, dor, mal estar. Crises ocorrem muito freqüentemente após ingestão de alimentos específicos para os quais o indivíduo já tem sensibilidade aumentada, comer muito rapidamente, comer após emoções fortes, ou quando o indivíduo se encontra muito cansado. Excesso de álcool, tabaco ou alimentos muito condimentados podem ser fatores desencadeantes de crises de gastrite”.

Não gosto de médicos (nada pessoal André), remédios e hospitais.

Detesto ficar doente.

Ai... tô quebrada hoje.



Escrito por Ana Ulanin.

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Simplicidade


Você escreve muito bem, mas deveria escrever coisas mais simples, mais fáceis de compreender, mais populares... É isso! Populares! Seria mais fácil vender seus livros. A maioria das pessoas não gosta de poesias.

Um trago lento, com gestos lentos, a fumaça dança em volta criando formas tão abstratas como o olhar dele. Aquele olhar castanho, de brilho intenso, tranqüilo como o silêncio e segredos de uma noite fria. Um lento trago no cigarro foi a resposta.

Veja bem, li seus livros e gostei. Não quero dizer que são ruins, ao contrário, mas achei um pouco difícil de entender. Estava pensando que você poderia escrever coisas simples para fazer sucesso, talvez até um livro de auto-ajuda já que está em alta e você que domina tão bem a palavra, poderia escolher um tema, desses que tem muita procura... — e falava e falava e falava, e falácias, falácias, falácias.

Os conselhos tornam-se ecos distantes, há somente gestos lentos e o silêncio macio. Uma linha tênue entre o simples e a simplicidade pairam no ar com a fumaça do cigarro, o tempo é dividido naqueles dois universos; não há aborrecimentos por conselhos vãos, não há vaidade ou orgulho e o fastio não existe. Há um olhar embriagado. Embebido de escritores, filósofos, artistas; e sem arrogância, sem prepotência, pois se isso existisse sucumbiria. 

Quem fala ali são aqueles que ele conheceu, a simplicidade de Bandeira, de Pessoa, de Baudelaire, os ecos de Platão e Agostinho, o Santo, a clareza da obscuridade de Caravaggio: suas vozes materializam-se. O resto é silêncio.



Escrito por Ana Ulanin.

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Cores


Queria cores. Tons de vermelho, magenta e azul. Tons de verde, muitos tons de terra, cobre e amarelos.

Tons de cinza e branco sempre me incomodam.

Pela manhã mal se vê as bocas; vê-se um traço cinza-claro no rosto. As pessoas possuem um olhar cinza, em seus ternos cinza, correm apressadas pelas calçadas cinza e entram nos prédios cinza para chegarem no horário cinza de seus trabalhos. O pó daqui é cinza.

O dia passa em tons de cinza e branco. Pessoas possuem no caminhar um cansaço cinza e suas falas sem cor ensurdecem o horizonte de um clarão estranho. Carros cinzas correm no asfalto sujo; mal se vê o farol vermelho. O barulho da avenida é cinza.

As manhãs de outono foram roubadas. Um clarão invade a retina, um clarão feio de um azul estranho, acinzentado, misturado em nuvens cinzas com raios de sol num amarelo sem cor alimentando árvores que não são mais verdes.

Tons de cinza e branco sempre me incomodam.

O anoitecer perdeu o vermelho. Tornou-se um cinza pesado como o chumbo, um cinza escuro. O céu torna-se mais baixo — posso tocá-lo.

Arranco um pedaço. Um pedaço úmido, frio como o cansaço, como as bocas cegas, o olhar cinza, o asfalto sujo e minhas mãos perdem a cor. Insisto em pincelar de vermelho, em tons de azul royal e aquele amarelo perdido na memória.

As pinceladas tornam-se pesadas. Pesadas como cinza chumbo, como os prédios cinza, enormes prédios cinza, tão pesados como os vagões cinza lotados de pessoas cinza, escravas das suas horas cinza.

Sento-me diante da janela suja: o interminável pó cinza.



Escrito por Ana Ulanin.

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Entre inúmeros prazeres que uma boa leitura oferece, um deles ocorre quando folheamos as páginas e lembramos de alguém. Pode ser uma amiga, o marido, o irmão; enfim, alguém de quem gostamos e que partilha do mesmo prazer.

Quem me conhece há algum tempo, sabe que tenho um amor pela poesia que jamais conseguirei definir! Meu sonho era nascer poeta. Pois é... nasci somente Ana.

Depois que criei meu blog conheci pessoas apaixonadas, lindamente apaixonadas pelas letras, pelas artes, pela vida. Alguns, mais recatados eu diria; outros, passionais, loucos no melhor sentido, que não temem em dizer quando apresentam em seu blog um poeta, um escritor preferido: “Olhem! Conseguem ver? Conseguem?”. E transbordam o amor pela literatura, despudorados, apaixonados, desejando que o leitor tome desse vinho: veja, enxergue o que há de belo em cada estrofe, em cada parágrafo! Tenho a impressão que nas entrelinhas está o recado: “Acordem! Embriaguem-se comigo!”.

Recatados ou não, são todos Dionísios. Convidam-nos para o prazer, para a entrega, deitam em nossa taça seus segredos mais íntimos revelados pelas mãos de outro, ou pela influência do escritor preferido escrevem suas próprias crônicas, contos e seus poemas. Mas de qualquer forma está ali um leitor que deseja dividir, partilhar todos os prazeres que um livro nos oferece. Cada um com sua maneira muito singular, frustrados às vezes porque seu leitor não conseguiu enxergar a beleza de seu próprio olhar e chegam a chamar-lhes de débeis (por Deus!). Todos, criticados ou não, continuam a apresentar seu amor, seu cúmplice e amante – seu livro preferido.

Então, pela paixão de uma pessoa distante e que tem se mantido longe da blogosfera, coloco aqui alguns poemas de um autor que sei que ela gosta, com um apelo: Heloísa, volte logo!

O Poeta Lutando contra o Infortúnio
(Bocage)


Apenas vi do dia a luz, brilhante
Lá de Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante:

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e enfim meu fado
Dos irmãos e do pai me pões distante:

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da Pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo:

E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz, da sepultura.

***

À Paixão de Jesus Cristo
(Bocage)


O filho do grã rei, que a monarquia
Tem lá nos Céus, e que de si procede,
Hoje mudo e submisso à fúria cede
De um povo, que foi seu, que à morte o guia:

De trevas, de pavor, se veste o dia,
Inchado o mar, o seu limite excede,
Convulsa a Terra, por mil bocas pede
Vingança de tão nova tirania:

Sacrílego mortal, que espanto ordenas,
Que ignoto horror; que lúgubre aparato!...
Tu julgas teu juiz!... Teu Deus condenas!

Ah! Castigai, Senhor, o mundo ingrato:
Caiam-lhe as maldições, chovam-lhe as penas
Também eu morra, que também vos mato.


Escrito por Ana Ulanin.

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