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Uma semana


Uma semana é muito tempo. São muitas horas, muitos dias, intermináveis noites e incansáveis ansiedades abafadas por um silêncio falso.

Uma semana é muito tempo para quem trabalhou arduamente durante três anos em pesquisas, estudos — dedicação. Plena. Absoluta.

Uma semana...

Foi o que o Fabio Ulanin, meu “namorido”, como a Carol carinhosamente denominou, esperou para defender sua tese de mestrado semana passada. Sua quietude, seu silêncio, revelavam sua preocupação. Minha quietude, meu silêncio a respeito da tese, acalentavam, ao menos um pouco, essas longas horas de espera.

Agora abaixo a guarda: falo aqui como mulher, como esposa que fez o possível para apoiá-lo em mais um passo, que viveu junto com ele cada minuto, como parceira, como minha prima definiu no dia da defesa.

Ah! Esse dia! Foi numa sexta à tarde, debaixo de um sol de Apolo! Minutos antes de entrar na sala tive tempo para divagar se aquela tarde tão bonita não seria primícias de boas novas depois de tanto inverno.

Vi o Fabio sentado diante da banca de defesa aguardando o começo de tudo. Aqueles minutos foram intermináveis, sarcásticos eu diria. Chega de silêncio — pensei. Chega! Pela sua palidez, o tremor de suas mãos, vi que aquele silêncio falso não agüentava mais. E foi quando começaram e lhe deram a palavra. Quando abriu a boca na hora me lembrei de uma frase de Latino Coelho:

De todas as artes a mais bela, a mais expressiva, a mais difícil, é sem dúvida a arte da palavra. Com certeza esse dom foi dado a ele.

Foram três horas de defesa... até agora não consigo explicar como me senti vivendo cada minuto. É como se fossemos um corpo só. Muita pretensão a minha? Acho que não.

Quando a orientadora deu a nota: dez com louvor, queria que o tempo parasse naquele momento! Ah! Por favor! Parem e repitam incansavelmente! Por favor! Tanta dedicação, tanto trabalho em meio a tribulações que esse ano nos oferece. Por favor, repitam! Ele merece!



Escrito por Ana Ulanin.

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Samambaias


Não discordar

 

Não refletir

 

Não pensar

 

Não discutir

 

Não polemizar

 

Não ter idéias próprias

 

Não falar absolutamente nada porque pode desagradar o outro.

 

Sinceramente?

 

Regue três vezes por semana e adube uma vez por mês.

 



Escrito por Ana Ulanin.

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O Menino e O Tempo


A altura do menino mal chegava aos meus joelhos. Devia ter uns oito anos no máximo.

— Me passa a grana! Vai! Anda logo!

— Não tenho.

— Me passa a bolsa!

— Não trouxe, bolsa. Toma, tenho um passe de metrô.

— Qué morrê? — e apontou a arma bem para o meu rosto.

Pareceu que o menino ficou me apontando aquela arma durante horas. Deu tempo de pensar se ele morava na rua, na favela, se teria mãe e imaginar como teria sido o pai dele. Tempo de notar seus olhos negros e envelhecidos, de ver suas mãos pequenas, eram tão pequenas... Tempo de ver seus pés descalços. Deu tempo para perceber que eu estava só pensando nele e me perguntar porquê eu não estava pensando em mim, ou na minha família, ou no que poderia acontecer comigo.

— Vai! Some daqui! Nem olha pra trás. Senão tu leva um balaço!

Fui para a casa. Percebi que não fui correndo, que não estava tremendo, não estava nervosa. Desejei estar... queria chorar, ficar com raiva, ter alguma reação, sei lá.

Chegando, contei o acontecido, fiz o jantar, assisti o jornal. Mais tarde fui dormir e o tempo daquele dia havia terminado.

Em uma tarde, não me lembro a data, mas lembro do sol que estava alto. Acho que era meio-dia:

— Tia, me paga um sorvete?

— Pago. Qual você quer?

E o menino, eternos oito anos descalços, ao me ver, saiu correndo como um louco e em segundos sumiu na multidão.

— Quem era o moleque? — me perguntaram.

— O menino que me assaltou.

— Que horror! Quando foi isso?

— Acho que foi na segunda retrasada, não me lembro.

Em casa, contei o acontecido, fiz o jantar, assisti o jornal. Mais tarde fui dormir e o tempo havia terminado.



Escrito por Ana Ulanin.

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Aborto


05/08/2004 - 10h46 – Correio Brasiliense

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) sinaliza que entrará fundo no debate sobre o aborto. No julgamento da liminar do ministro Marco Aurélio Mello que liberou a retirada de fetos em casos de anencefalia, os 11 ministros do STF deverão avançar na discussão do assunto, com análises bem mais polêmicas do que a questão dos que são gerados sem cérebro. Pretendem discutir, por exemplo, se a mulher tem ou não o direito de interromper a gravidez quando o bebê tiver outras anomalias, como síndrome de Down, ou mesmo quando a criança for saudável, mas a mãe não quiser tê-la. O julgamento da liminar ocorrerá em setembro, e não mais em agosto como estava previsto. (continue lendo...)

 

A solução do problema do aborto é simples: contracepção. A proposta da lei, no caso da síndrome de Down, é nada menos que eugenia, prática comum nos campos de concentração nazistas; no segundo caso, o da “escolha da mãe” é um crime.

 

Dizem as defensoras do aborto que o corpo é delas, logo decidem o que fazer: se mantém uma vida ou a tiram. Justificam-se dizendo que são responsáveis pelas suas decisões. Mas não são responsáveis na hora do sexo. Estou farta de ver amigas fazendo contas como umas loucas usando o velho método da tabelinha para saberem se ficaram ou não grávidas. Passado o susto, no próximo mês estão novamente desesperadas.

 

Se a responsabilidade é um argumento válido em defesa do aborto também o é na sua condenação.

 

(A respeito desse assunto, leiam ainda o belo artigo “Os Novos Eugenistas” por Rodrigo Pedroso no blog Oito Colunas)



Escrito por Ana Ulanin.

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Aos Chatos de Plantão


Escrevo o que quero. Não me importa nem um pouco se meu blog não segue uma determinada proposta. Estou é pouco me lixando para isso.

 

Dependendo de como amanheço quero falar de poesias, dividir o que leio, o que sinto, apenas me importando com as entrelinhas do poeta, com a perturbação (ou não), da poetisa.

 

No outro dia acordo diferente. Acordo com a Rita, uma menina que, mesmo com a dureza da vida, enxerga o mundo à sua volta com a simplicidade da criança que é.

 

Mais um dia. Levanto com a sensualidade de Pierre Louys. Quero mais é provocar, mexer com libido, às vezes silenciosa, às vezes gritante. Quero que as mulheres que lêem sintam-se como Afrodite e que os homens olhem para suas esposas, para suas companheiras, e as desejem como tal; e os que estão sozinhos... sonhem! Sonhem que um dia encontrão tal beldade!

 

Nos dias em que levanto farta de tanta hipocrisia, tantas posturas pedantes cheias da vaidade das vaidades, quero mais é mostrar minha ira. Escrevo diálogos – e alguns me chamam de louca, outros não entendem... mas não me importo: a partir do momento em que meus sentimentos vão para o papel, eles já não me pertencem — não é mais de mim que estou falando.

 

Canção de Outono é assim; fala de arte quando deseja e, sim, com uma visão muito pessoal. Fala de vozes e olhares às vezes desapercebidos, fala de gritos. Os meus e, talvez, os seus.

 

Canção de Outono às vezes se cala. Não deseja falar de nada, apenas nas imagens dos layouts que cria buscando a sensibilidade para compreender um pouco do outro, falar pelo outro e dando sempre o melhor de si. E, claro, nesse caso há também os chatos de plantão com críticas em mansa voz, mas que são comezinhas, destrutivas, para tentar contaminar quem recebeu o layout e chatear quem o fez. Quer saber? Vá dar suas opiniões para senhora sua mãe.

 

Aos amigos, peço desculpas. Meu humor hoje está mais para Baudelaire.



Escrito por Ana Ulanin.

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A mais-valia e o nada-vale


Desde o instante em que a arte deixa de ser o alimento para as mentes, o artista pode usar todos os truques do charlatão intelectual. Hoje em dia, a maioria das pessoas não espera mais receber consolo ou exaltação da arte.

 

Os “refinados”, os ricos, os ociosos profissionais, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso na arte. Eu mesmo, desde o cubismo e além dele, contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça.

 

E quanto menos eles me compreendiam, mais eles me admiravam. À força de me divertir com todas essas brincadeiras, com todos esses quebra-cabeças, enigmas, e arabescos, eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza. E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico.

 

Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenho a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra. Giotto, Tiziano, Rembrant e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público — um charlatão.

 

Compreendi o tempo em que eu vivi e explorei a imbecilidade, a vaidade, a avidez de meus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, na verdade mais dolorosa do que parece.

 

Mas ela tem o mérito de ser sincera.

 

(Giovanni Papini, Libro Nero, 1951)



Escrito por Ana Ulanin.

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