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A situação tá preta!


Quero escrever esse texto há dias, mas tenho um defeito, e esse é de fabricação: não agüento o calor! Não suporto o calor! No calor, não penso! Não ajo no calor! Não reflito no calor! Quero morrer no calor! Sinto-me uma ameba gigante derretendo lentamente nessa cidade que mais parece uma panela de pressão feita de cimento. A única coisa que me vem à cabeça é uma cama feita de gelo, chinelos de dedo, de gelo, e o desejo de passar o dia debaixo de um chuveiro.

 

O que me tirou desse torpor foi uma notícia ridícula que vi por esses dias. Uma garota — parda (pela definição do IBGE. Para mim pardo é envelope) — tem que provar que é negra para fazer parte das cotas que o nosso amado governo impôs às faculdades.

 

Para se conseguir uma vaga daquelas das cotas raciais, a menina deveria ser negra-negra e não semi-negra; devia ter raça pura: ter nariz de negra, lábios de negra, cabelos de negra, olhos de negra – e, principalmente, a pele negra, negríssima. Qualquer tom abaixo do breu racial completo é suficiente para desqualificar a candidata.

 

Mas vejamos. Vivemos em um país miscigenado. Não há uma pessoa sequer que não tenha um pezinho em África (menos o nosso presidente que, parece, tem os quatro fincados por aqui). Mesmo o branco-branco tem alguma coisa de lá, se não na cor pelo menos na cultura. E isso é algo que se vê nas ruas, famílias inteiras, de cinco, seis pessoas, que abrangem todo o degradê racial: mãe negra, pai branco, um filho mulato (epa! pardo, desculpem) mais escurinho com cabelos lisos, outro mulato mais clarinho e de cabelos crespos e olhos escuros, o terceiro branquinho branquinho de lábios grossos, o quarto negro de verdade com os olhos claros. Quem dessa hipotética família é o negro de verdade? A quem se reserva a vaga na universidade? Esse o caso da garota que tem de provar que é negra: tem uma ou outra coisa da raça, outras de outra, mais algumas de uma terceira... um maravilhoso coquetel racial. É o que nos forma. Deveria ser o que nos salva.

 

O engraçado é que não perguntaram, não quiseram saber se a menina era inteligente ou não, se tinha capacidade para cursar a universidade ou não. O seu conhecimento, o seu desenvolvimento intelectual, pouco contam. O que interessa é apenas a aparência, o que é o mais claro sinal de racismo que pode existir. O exterior, a pele, o que ela parece ser vale mais do que ela é. Mais ou menos assim: se é negro-negro é inteligente. Se é meio-negro, é meio-burro, a burrice herdada da outra parte, claro. Uma coisa dessas só incentiva a separação social, só aumenta o racismo.

 

Passssmem! Vocês lembram daquele concurso “A Mais Linda Negra do Brasil” comandado pelo tosco do Netinho? Assisti, não lembro em que canal, uma garota mulata denunciando que não pôde participar do concurso porque exigiram que fizesse bronzeamento artificial para escurecer a pele e ela se recusou.

 

Mas tem uma coisa que percebi: só existe uma minoria neste país, a minoria de verdade – o pardo ou paurdo como dizem lá na minha terra em Ribeirão Preto. O pardo, não sendo negro, não é aceito no círculo dos “puros”; não sendo branco, enfrenta os problemas de sempre para conseguir, por exemplo, uma vaga no trabalho.

 

A parda que voz escreve já tomou paulada de tudo quanto é lado: já sofri preconceito de brancos por ser negra, de negros por me acharem branca e de outros negros por me acharem negra.

 

O pardo é um tipo de joão-bobo social: de lá para cá, balançando, não é nada.

Escrito por Ana Ulanin.

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