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A Inveja


Ela é louca! Louca! Acredites em mim! Como não consegues ver? Não leste os escritos dela? Não viste?! Tão despudorados, néscios, cheios de furor — insanos! A malícia se esconde naquelas letrinhas atraindo homens e mulheres para a volúpia! Ela é demente! E tu também és por gostares desses escritos! Cegos! Todos estão cegos! Já percebeste como ela revela a nudez? Percebeste? Aquele rosto de anjo nunca me enganou; tem os olhos e os lábios descarados, suas mãozinhas cínicas são cheias de feitiçaria! Não achas um absurdo que ela revele maliciosamente suas luxúrias de leito? Revela seus lençóis sujos por suores, os tremores das ancas, os rostos desfigurados e o cheiro do púbis. Revela suas ânsias e dores, seus sofrimentos, suas paixões e lágrimas — lágrimas falsas! falsas! —, tudo em uma taça de brilho reluzente para ofuscar vossas visões! Oferecendo de beber e vós, vós todos, como se estivessem embriagados, deleitam-se e lambuzam-se... Porcos! Tu estás enfeitiçada! Todos estão tomados por esses escritos de Babel melíflua! Vejas isso! Não é atrevimento ela escrever também sobre crianças? Descreve a inocência, a ingenuidade, a beleza de almas tão puras com palavras cheias de ternura, usando sua alma corrompida pelo pecado! Não vês? Na beleza dessas delicadas linhas há grilhões para prender-vos! Cala-te! E escuta-me! Livra-te desses escritos enquanto há tempo! Ela é louca! Queima-os!

Não há maior prazer do que queimar falsas inocências. Creias em mim: não há! As chamas que te consomem ao lê-la, ao devorar saborosamente cada uma das letras, as mesmas chamas purgarão, sílaba a sílaba, o mel e o fel que escorrem. Ah! Mas é purificador! Ah! Mas a mesma sedução das palavras revelar-se-ão nas línguas fluidas das chamas, envolvendo o corpo como a carícia que desejas... Verás: pelos e peles chamuscadas não mais pelos lençóis de seda e cetim, não mais os músculos arqueados pelo deleite, não mais os olhos revirarem-se e a língua retorce-se para que tu sintas o prazer. E ela cantará! Cantará o doce silêncio de sua língua. Cantarás também, não mais as loucuras, mas a serena forma de seres vulgar.



Escrito por Ana Ulanin.

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Vingança


Helena, veja! Vem à janela divertir-se como eu! Corjas apinham-se como abutres prontos a nos arrancar os olhos! Rasgam as próprias vestes pelo que revelamos em seus espíritos medíocres. Praguejam vorazmente a nossa mãe por nos dar a Luz e gritam que nosso pai jaz do maligno. Ah! amada irmã, delicie-se: somos as filhas da Estrela da Manhã! Amaldiçoam-nos por despertarmos as bestas escondidas entre suas pernas que urram pelo adocicado cheiro do cio. Queimam nossos escritos, mas não lhe tiram os olhos — desejam mesmo é devorá-los letra a letra, jorrar gozos eternos em nossos corpos incorruptíveis dito profanos por suas falas hipócritas. Venha amada, deixe-te beijar os seios para que as iras ejaculem por suas bocas. Isso, minha Helena... permita que me vejam perder-se em tua pele alva por toda a existência.

Vós é que sois libertinos, cegos e imundos! Julgam-nos como inquisidores, pensam ser os senhores da verdade, mas o que almejam insanamente é embriagarem-se até que não nos reste uma gota sequer e, frustrados, apedrejam-nos sabendo que jamais possuirão nossos vermelhos lírios. Vós sois o próprio asco!

Arrependei-vos? Nós somos a Redenção! Vossos segredos intensos, viçosos, tomam-nos os lábios; tragamos pela nossa escrita a pele de vossos pensamentos: tuas almas condenadas, tuas vidas ocultas que nos elevam e preenchem. Minhas cativas crianças... murmuramos sobre tuas carnes ternas e feridas e revelamos vossas agonias noturnas. Vemos vossas pupilas dilatadas e o movimento contínuo das mãos bulindo o corpo — que explode em engano e engodo dessa existência moribunda, que é a vossa. Somos a que traz vida sob vossas castradas misérias.

Desejam que temamos o fogo? Covardes! Pois que não reconheceis em vós mesmos a ânsia fremente que despertais. Não sabeis (nenhum de vós, púberes ignorantes) o quão alto e idílico é este despertar de vossas vestes. Soubésseis! Soubésseis... Preferiríeis estar em nosso lugar, sob os acoites dóceis que nos infligis, vertendo este sangue que pactua os nossos – e os vossos – desejos... Ah! mas é doce esta manifesta imolação, pois é dúbia a ira que demonstrais, é súbito o gozo que sentis! Resta apenas o riso, frenético, em vosso rosto – resta apenas a miséria que demonstrais sem satisfazerem-se pelas nossas culpas! Culpas? Quem sois (o nosso riso responde, breve), quem, digam-me – quem? Sois a máscara que vestimos, o insano sono de sombras; o súbito enleio volátil que, embora tímido, recua às pressas dos sons da melodia serena que emitimos – eu e minha irmã-prece. Descobris a vossa própria verdade em nossos gemidos! Quereis os nossos seios em chamas — e chamais o mergulho eterno em nosso oceano perene.

Tolos! A doce língua de Helena serpenteou e me abrasou muito mais, fazendo-me entregar lágrimas e risos que jamais conhecereis. Nossa carne queima em gozo; e vosso gozo encontra sutil irmandade com o sofrimento que pretendeis que sintamos. Vossa voracidade vibra com a volúpia! Inda que o fogo nosso vos incinere, caireis no sublime acalanto de nossa voz — e estaremos eternas em vossas almas.



Escrito por Ana Ulanin.

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Romã


I

Pelos sons e silêncios abissais do seu corpo,

que se negam e revelam o íntimo mistério.

 

II

As filhas dos deuses visitaram meu sono.

Danaides traziam, ao invés de água, teu leite noturno com flores de jade em seus tonéis sem fundo. Mãos afetuosas e apaixonadas banhavam-me em teu leite que me entorpecia e o jade iluminava-me. Desenharam-te em meu corpo com ouro em pó, sangraram-me os lábios com carmesim, acariciaram óleos aromáticos e mel em minhas ancas e embeberam meus seios nas vinhas de Dionísio. Nereidas vieram e enfeitaram-me os cabelos com conchas e fitas de ametista, cintas de água-marinha ornamentaram meu ventre nu. Festivas, pegaram-me as mãos e dançávamos às deusas para que se fizesse cumprir meu chamado; de suas vozes fluíram cantares, indecifráveis e suaves como as ondas noturnas. Perséfone, ouvindo-os, assistiu ao meu coração mortal à sua própria súplica — como se colocada uma semente de romã em minha boca, estava fadada a viver dois mundos. [continua]

 



Escrito por Ana Ulanin.

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[continuação Romã]

III

Pela manhã mal se vêem as bocas;

vê-se um traço cinza-claro

(nas faces).

As pessoas têm um olhar cinza,

em ternos cinza, correm pelas calçadas cinza

e entram nos prédios cinza

para cumprir seus horários cinzas.

 

O pó daqui é cinza.

O dia passa em cores sem foco.

Pessoas têm no caminhar um cansaço

cinza

e suas falas sem cor ensurdecem o horizonte de um clarão alheio.

Carros cinzas correm no asfalto sujo;

mal se vê o farol vermelho. O ruído da avenida

 é cinza.

 

As manhãs de outono foram roubadas.

O clarão invade a retina,

clarão feio de um azul indefinido,

acinzentado,

misturado em nuvens cinzas e raios de sol

num amarelo enfraquecido alimentando árvores

(estranhas).

 

O anoitecer perdeu-se;

um cinza pesado — assume-se — como o chumbo,

escuro.

O céu torna-se mais baixo — posso tocá-lo.

Arranco um pedaço,

úmido, frio como o cansaço, como as bocas feitas de um traço, o olhar

 cinza,

o asfalto sujo e minhas mãos perdem a cor.

 

Insisto em pincelar de vermelho, em tons de azul

e aquele amarelo hiato no passado.

As pinceladas tornam-se pesadas.

Como cinza chumbo, como os prédios cinza,

(enormes prédios cinza)

 tão pesados como os vagões

cinza

lotados de pessoas

cinza,

 escravas das suas horas

(cinzas).

 

Sento-me diante da janela suja:

o interminável pó

                                cinza.

[continua]



Escrito por Ana Ulanin.

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IV

O leito foi-me preparado, esculpido em gelo e lírios e narcisos. Perséfone deitou-me, beijou-me o lábio e de sua boca vinha-me à lembrança os teus odores. Esmirna, minha Esmirna! Somente a ti entrego minha oferenda. Aceita-me como tua serva, a tua eleita. Aceita-me como quem aceita a inevitável sensatez das sensações díspares, entre os cabelos em tranças púberes e as coxas ebúrneas que se entrelaçam. Como quem, depois da cavalgada noturna, retorna à casa e encontra os véus no leito de leite e jasmim; como a boca que cede, sedenta, aos deleites pétreos de minha paixão íntima.

V

Entalhos de mármore foram lançados em teu chão de zinco. Ajoelhada sobre a vida tento ordená-las, ligá-las, vencê-las — não as encontro. Mil peças, mil vidas, olhares, perco-me nesse insistente, incessante ordenar, jazer, respirar, caminhar, resgatar, recolher-me em teus vidros e pérolas de falsas falas. Abstenho-me.

VI

Meu corpo revela-se, desvela-se, e apreende os doces sorrisos de tua voz, onde teus pássaros preenchem o vácuo intenso das cores e dos metais. É ofertado a ti como teu santuário de horas e tuas mãos hábeis percorrem-me — brincas com minhas coxas úmidas, meu ventre inquieto dança em seus dedos, a seda de teus lábios sacia-se em meus seios, decora-os, reinventa-os, faz-me descobrir sensações antes não vingadas através de tua língua doce mestrando minha pele e curvas; desvenda-me os odores e os sussurros, sorves suores em meu umbigo e embriaga-se por entre minhas pernas — assim me tornas tua eleita, meu êxtase. Ah! doce e eterna Esmirna! Que teu nome recenda aos incensos virginais das promessas e das dores! Este nome de mistérios de sonho e vela que preenche minha vala como teu cântico último.

VII

A vida se esvai em sons vagos por mordaças e arames,

gestos inconscientes em esboços

constantes no lençol frio.

 

E seu olhar de silêncio inerte

divaga o sorriso lento dos meus pés cansados

e sons das minhas mãos úmidas beijam terra e pó

em pequenas taças de vinho e sal.

 

Ecos de uma linha tênue

fragmentada por formões nas águas.

VIII

(Trevas invadem meus olhos; trevas sedentas, lentas, densas, neutras. Dominam, penetram-me as pernas, ferem-me, saciam-se, transformam-me. Vejo teu sangue — teu pai).

— Amaldiçoada sejas, Esmirna! Queres ser mais adorada do que a mim, a Deusa? Acreditas em tua beleza que o tempo devora a cada segundo? Como te atreves receberdes ofertas de louvor como se fosses como eu? Maldita sejas no doce acalanto de tua miséria de ânsias de paixão! Receberás o amor! Ah! sim! Darei o que queres! Anseias pelo amor de leito — pois que a tua vontade seja feita e que te realizes na ínfima sombra do teu desejo! Terás o amor profano — teu incesto e o sêmen jorrará demente sobre teu corpo até que tua carne apodreça. Suplicarás por estares no limbo em suas e tuas noites infernais — e não permitirei nem tuas lágrimas servirem de consolo. E tua eleita, que te ama mais do que a mim, e se atreve a voltar-me as costas, rangerá os dentes aos meus pés: seus joelhos tornar-se-ão chagas diante do meu santuário, implorando misericórdia por ti. Amar-te-ás e definhará em agonia! E todos os mortais e deuses cantarão por todos os séculos as belezas de Afrodite!

IX

Instantes de minhas mãos resgatam horas, intermináveis, prolixas como cruas madrugadas e seu segredo ensurdecedor. Instantes de minhas mãos perecidas, perdidas, exaurem tuas bocas putrefatas e nuas — calas o teu consolador. Instantes de teus dedos ditosos, insensíveis, vingam minhas vidas oníricas — arrebata-as cheias de dor.

X

As filhas dos deuses protegem meus sonhos.

Ajudam-me a desembaraçar a linha tênue da fonte de minha alma (que se esvai presa nas rocas). Perco Esmirna em neblinas estranhas e nossas vidas são lentamente ceifadas — são brumas douradas. Perséfone vem de minha profundeza entoando os cânticos perfumados, aspira ventos suaves e vejo os pés da amada embrenharem-se em terra. Seu corpo esguio assume outras formas: entranhas, vincos, nós nascemos de seu ventre e braços e seios e púbis enquanto lágrimas transformam-se em seivas. Perco Esmirna – encontro Mirra constante em meus sonhos.

XI

Grito.

 

Mas minha voz

já não existe.

Escrito por Ana Ulanin.

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Véus


 

Enganas a ti mesma!

 

Vai! Afogas logo a boca no teu cio covarde e misericordioso já que temes tua própria sina inquisitória! Engoles a longos tragos teus próprios dentes que rangem pelo prazer inócuo de ti mesma. Tola... Achas mesmo que tuas palavras ornamentadas em sons execráveis, vorazes, libertam-na? Ah! Mal percebes a própria nudez sob os véus impostos que tu mesma odeias.

 

Não vês? Rasga-os, desdenha-os e veste-os cheia de gozo! Sim! Cheia de gozo delicia-se ao toque confortável, tão cinicamente seguro e prazerosamente consagrado por todos e tudo que detestas e necessitas tanto! Esfrega-os fogosa e incansavelmente sobre seu púbis deturpado, e completamente absorta, a ti mesma confessas — ah! sim! sou pura!

 

E assim continuarás em tuas exéquias diárias, lentas, rasas e meticulosamente abrigadas pelo fastio, arrastando teus pés crivados em teu próprio círculo de labirintos desgastados pelo enleio de teu acme castrado. Vá! Segue em frente até tua carne tornar-se insípida e tuas mãos ficarem senis! Os véus te protegem!

 

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Imagem: Hans Bellmer                  



Escrito por Ana Ulanin.

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